Sindicato alerta que quem recorre a tatuadores ilegais está sujeito a contrair doenças como Hepatite C e AIDSJonas Barbetta – TaubatéA quantidade de estúdios de tatuagens que funcionam de forma irregular em Taubaté tem preocupado os tatuadores que trabalham legalmente na cidade. A categoria alega prejuízos financeiros e alerta sobre os riscos de saúde que a população corre quando procura esses locais como forma de conseguir o serviço por um valor abaixo do preço de mercado.
Segundo esses profissionais, quem recorre aos estabelecimentos que não possuem registro junto à Vigilância Sanitária está sujeito a contrair doenças como hepatite C, Aids, rejeição da tinta que foi aplicada na pele, além de infecções causadas pela falta de esterilização dos materiais usados durante o processo de produção da tatuagem.
Para tentar impedir o aumento do número de estúdios ilegais, o Sindicato dos Estúdios de Tatuagem e Body Piercing do Brasil - Setap-BR - solicitou em 2001 ao Congresso Nacional um projeto de lei que possa regulamentar a profissão de tatuador no país.
O diretor e presidente do Setap-BR, Antônio Carlos Ferrari, informou que o pedido encaminhado aos parlamentares foi votado duas vezes, mas não obteve aprovação. Para Ferrari, o motivo está relacionado às falhas no sistema de saúde do país. “A área da saúde pública é a mais difícil de avançar. Nossos hospitais são as provas reais desse descaso social”.
Ferrari informa ainda que o Setap-BR não tem o poder de fiscalizar os estúdios ilegais, mas que alerta a Vigilância Sanitária sobre a ação dos tatuadores clandestinos. O diretor ressalta que o sindicato entrou com uma ação junto ao Ministério Público Federal sobre a negligência dos órgãos competentes que não fiscalizam esses estabelecimentos.
Em Taubaté, o tatuador Ricardo de Camargo Garcia acredita que a Vigilância Sanitária fiscaliza apenas os locais que já possuem alvará de funcionamento. “A vigilância fica muito mais forte na gente que trabalha direito e não nesse pessoal que age de qualquer jeito”.
Para Rubens Pellicitti, conhecido como Binho, que há 25 anos possui um estúdio legalizado no centro de Taubaté, a clandestinidade acaba desvalorizando a profissão. “Fora do país, o preço mínimo de uma tatuagem é US$ 150; aqui [no Brasil] cobramos R$ 100, a pessoa sai daqui e vai procurar um estúdio de fundo de quintal que cobra R$ 20, o que não paga nem o custo do material”.
Há cinco anos na profissão e com registro na Vigilância Sanitária de Taubaté, José Antônio da Silva avalia que, para a produção de tatuagens, não basta apenas possuir o material que é facilmente encontrado à venda na internet, mas sim ter noções de artes plásticas. “A pessoa tem que saber um pouco de arte. Ela tem que saber desenhar se não vai sair um trabalho mal feito. O tatuador que só copia [trabalhos de outros artistas] vai trazer problemas para as pessoas”, destacou.
Além da ação realizada por clandestinos, outra reclamação que parte dos tatuadores registrados é a aplicação de piercings em estabelecimentos, segundo eles, inapropriados para essa prática, como farmácias e óticas, que cobram em média 45% abaixo do que seria o custo em um estúdio legalizado.
A Vigilância Sanitária de Taubaté informou que desde 2006 é responsável por fiscalizar as condições do local onde será realizado o trabalho do tatuador. Se for flagrado de forma ilegal, o responsável pelo estabelecimento terá dez dias para se adequar e terá que pagar uma taxa que varia de R$ 150 a R$ 200. Em caso de reincidência, o estúdio poderá ser lacrado.
EXCEÇÕES - Sobre a prática de aplicação de piercings em estabelecimentos impróprios, o agente da Vigilância Sanitária de Taubaté, Walter Moya Rodrigues, informou que, por “tradição”, farmácias podem perfurar apenas o lóbulo da orelha para o uso de brincos, desde que um farmacêutico esteja presente no momento do procedimento.
Com relação às óticas, em Taubaté apenas uma loja está habilitada em realizar a aplicação. Segundo Rodrigues, o local foi avaliado e recebeu o alvará de funcionamento, pois as condições apresentadas atenderam a todos os critérios da Vigilância Sanitária. “Existe uma parte separada por vidro onde só fazem a aplicação de piercings, mas eles têm toda uma estrutura para esse procedimento”, afirmou.
ARREPENDIMENTO - Cerca de 30% das pessoas que vão aos estúdios legalizados pedem para que o trabalho que foi produzido em locais clandestinos seja reparado. A técnica conhecida como ‘cobertura’ produz um novo desenho sobre a tatuagem antiga, a qual é totalmente modificada ou recebe apenas alguns retoques.
Caso a pessoa se arrependa de ter feito o desenho no corpo, é possível retirá-lo completamente por meio de um sistema a laser que é aplicado sobre a pele. O dermatologista Rubens Garcia alerta que, além desse processo ter um valor elevado, o resultado final não deixa a parte do corpo onde foi tatuado como antes. “É um tratamento caro e que não garante que vai ficar uma coisa boa”, frisou Garcia. “A pessoa achar que vai ter a pele como era antes é ilusão”.
Foto: Jonas Barbetta
José Antônio da Silva (Toninho) durante sessão de tatuagem em seu estúdio; para ele, o tatuador precisa ter conhecimento em artes plásticas para exercer a profissão